sábado, 21 de março de 2009


A GRUTA

Buscarei noutras mortes a minha última clepsidra. Falta-me o álcool na carne dos dias; pregar de miragens; papéis marcados com versos...
Ao sol toda obediência dos crentes! Também descarnarei da aurora a minha ignorância de esteta! Ausência de filhos e um universo de cemitérios para o descanso.
Eu e tu, amor impossível, de mãos à distância do fogo que escorre pelo teu nome – mirto sobre tua existência –, seremos serenos como os ferros de uma longa catedral – nave das perdas de todas as identidades, estábulo de inocentes, taça de pedras movidas...
Trago a visão do meu tempo; arte de rebelados; mitigantes – perdão... Nas fileiras noturnas a casa do Nada é uma imensa moenda – parte de uma morte mais funda que se chama ausência de luz.
No último subúrbio do meu coração revi a gruta do teu esquecimento e os líquidos navios de tuas mãos. Criaste a água e o fogo – lúdicas fontes desfeitas com o dia, que a alegria da festa não sabia, matando-as com a luz que o olho engolia.
Pele do trânsito das aves, lente de infinita claridade! Não sabe a estrada em que cabe esta gruta,
A gruta esquecida,
A gruta,
A gruta.

wbl, in O Ópio e o Sal

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