terça-feira, 19 de abril de 2011


O PARQUE
W.B. Leal


Foi quando a falta inundou a distância que eles perceberam que seu peso era maior que a simples saudade. Eles relembravam calçadas, vitrines, parques e avenidas por onde dias antes derramaram uma alegria que apenas os corpos entendem. Mas os corpos não conseguem lembrar além da falta de calor, não podem curar a falta do amor que as noites consomem, a falta do riso que ilumina a fala, das mãos entrelaçadas que são muito mais que sua extensão amorosa. No entanto - eles sabiam - aquela cidade não seria mais a mesma depois das quatro noites reinventadas quase onze anos depois, e enquanto ela perguntava “você já se reacostumou comigo?”, ele sentia que o seu corpo nunca preenchera aquele vazio com outro corpo ou lembrança, e que a presença dela também fora a ausência que por tantos anos se multiplicara como um espelho dentro de outro espelho. Agora o silêncio inundava a distância que eles planejavam novamente apagar, e a certeza do outro era a alegria veloz das bicicletas do parque.

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terça-feira, 29 de março de 2011



A DANÇARINA E O POETA

W.B. Leal

A dançarina, um dia, propôs ao poeta: “Se tu me ensinares a fazer uma poesia, eu te ensino a minha dança”. O poeta, feliz por encontrar a dançarina, respondeu que, ainda que lhe ensinasse a poesia, não poderia dançar: “É que estou preso à liberdade, e isto não se pode ensinar. Mas vou te fazer um haikai”. E escreveu:

“Leve borboleta,
Asa e lagarta de flor:
Lembrança que leva.”

Não é fácil ensinar a liberdade, e para a primeira tentativa do poeta, a dançarina torceu o nariz. “Não é isso o que eu procuro”, ela disse, “preciso de um poema que não seja tão complicado”. O poeta, desafiado em seu orgulho e competência, antes de voltar a escrever começou a desenhar. Queria ver a forma antes da palavra, a ideia antes do intento. Num minuto, tinha a nova criação:

“Beija-flor parado,
o leque o olho não vê:
gesto e sentido somados.”

Mais uma vez a dançarina não se satisfez. “Ainda não consigo entender”, ela disse, cabisbaixa. “Não escrevas sobre coisas tão difíceis!” O pobre poeta, já meio sem jeito, olhou encantado para a dançarina e respondeu: “É que estás presa ao que não podes mais ver, e assim nenhuma palavra poderá traduzir o que eu sinto, pois eu sou livre para criar o que tu não podes compreender...” E logo disse: “Mas acho que já tenho uma ideia, e mesmo que a falsa liberdade dos teus movimentos te impeçam de entender a verdadeira liberdade, vou tentar mais uma vez!”. E o poeta escreveu:

“Salto sobre o rio.
O tigre acorda o espaço.
Tudo é ponte e passo.”


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quinta-feira, 24 de março de 2011



PAS ICI
W.B. Leal

Quero que saibas, dançarina,
que enquanto os relógios constroem distâncias
e os dias desatam os laços de tantos amores,
a tua lembrança permanece em mim,
grande como os teatros do sol,
clara como a lua que dorme em teu corpo.
O teu amor é este universo de luzes,
e a tua alegria é música e razão.

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sábado, 5 de março de 2011


AMOR E CHOCOLATE
W.B. Leal

O beijo do encontro na rua ao lado Chocolate ao leite com recheio molhado O toque da pele e a delicadeza da saudade Morangos inteiros e chocolate amargo As mãos entrelaçadas pela paixão reencontrada Chocolate negro iluminado por amêndoas A alegria do ouro com a lembrança de Istambul Chocolate com pistache e fios de laranja Turquesa de Murano em pingente de Veneza Chocolate branco com crocante e recheio de avelã Dois corpos em chamas sobre a calma dos lençóis Chocolate levemente amargo com cerejas e um traço de branco Gemidos úmidos em silêncio comungados Trufas de chocolate ao leite e barras de biscoito mergulhadas em negro A permanência do amor num único êxtase E uma última gota sobre a pele.

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quinta-feira, 3 de março de 2011


O ACENO
W.B. Leal

Quando o azul se cobria de sol, sua lembrança era o incêndio de todas as safiras, Da varanda alta, nas manhãs diante do mar que como uma árvore balançava cem mil garrafas, o seu aceno era uma carta para o náufrago faminto, e sua mão era tocada, de muito longe, como um beijo beija a boca que também é alimento, Um minuto depois, caladas as árvores nos estilhaços do mar, ele repetia o seu nome relendo-o nas paredes da casa e cada letra traduzia um desejo onde tudo era véspera, Assim, quando a tarde descosturava o calor para bordar a noite fresca, renascia o alento de seu mínimo gesto - o aceno da manhã - e outra vez era azul a sua lembrança.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


MALADE POUR UN MOT D’AMOUR
W.B. Leal

Quando ele estava doente ela dizia Queria passar a tarde cuidando de você, e isto era como um bálsamo que lentamente curava enquanto ele ouvia o relógio construindo frases que pareciam repetir Queria passar a tarde cuidando de você, pois queria estar vivo para recomeçar o capítulo que só se escrevia com a presença dela, Os relógios são escritores cegos, dizia, Em seus livros o amor é sempre possível não importa a chuva ou a doença, e voltava a dormir sonhando com partituras e danças para uma única dançarina.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011


ORBE AMOROSO
W.B. Leal

Na véspera ela escrevera Estou morrendo de saudade, e ele pensou Temos fome do que não vivemos, sentimos os relógios pararem como se o peso de uma delicada lentidão enchesse o mundo do que é só ausência, sim, ela sabia que a distância era o fio que deseja ser quebrado e caberia aos dois este outro laço, desfecho de um segundo passo, alquimia amorosa que transforma a distância em alimento, a espera em aproximação, Eu conto os minutos como grãos de areia, ele confessou, espelhos de um céu apenas começado ou teto que será o universo quando sua presença for a minha casa, e ela sorria enquanto imaginava escrever Eu quero ser este céu mesmo que exista um milhão de estrelas, e ele então diria Tu és a minha estrela.

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