domingo, 10 de maio de 2009




O projeto também é a sua construção. É o fazer em harmonia o que o traz à luz, o que faz da idéia o real. O calor da fogueira é a sua primeira e última possibilidade, silêncio ou melodia que apaga ou ilumina a memória, o que se reencontra ou se perde na distância... O projeto também é a sua construção, sim, mas a construção da harmonia: espaço em que a palavra encontra a sua asa, o canto o seu tom, e tudo acontece. Do contrário, o projeto é desconstrução de expectativas, apagar de sonhos, dissolução de imagens. Do contrário, os construtores não alcançarão as estrelas...

wbl, in Processo. 10/05/2009.

domingo, 19 de abril de 2009


Há certas coisas que não deveríamos desperdiçar uma vida sem ler, sem ver ou sem ouvir. Por exemplo: um poema de Fernando Pessoa, uma exposição de Picasso, um show de Burt Bacharach...

wbl

sexta-feira, 17 de abril de 2009

CINEMA




Você adorou "Quero ser John Malcovitch"? Se apaixonou por "Brilho eterno de uma mente sem lembrança"? Ficou eternamente intrigado com "Adaptação"? Então prepare-se: Charlie Kaufman - roteirista e autor destes três filmes - está de volta. E com algo muito maior e inesquecível: "Sinédoque Nova York". Eis a prenda: se você chegar até o fim deste filme, terá atravessado o espelho atrás do qual encontrará a si mesmo observando sua vida. Quem sabe você se sinta passivo demais? Afinal, você é um personagem ou o protagonista? Um expectador ou o roteirista? A vida é isto ou isto é um cenário? A vida é sonho ou é real? Se é sonho, quem nos sonha? Se é real, o que são os nossos sonhos? Até quando?... Enquanto você pensa, corra para o cinema!

wbl
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CÂNTICO
Vinícius de Moraes

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a ideia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre. Demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor. És o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

in Poemas, Sonetos e Baladas

quinta-feira, 16 de abril de 2009


UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA
Allen Ginsberg

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
No meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de neon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em uma hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco em teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a tua quando Caronte parou de impelir sua balsa e tu desceste na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?

in UIVO, 1956

quarta-feira, 15 de abril de 2009


"Todas essas montanhas, você já as palmilhou uma por uma, e já é quase outono, tempo de voltar. As montanhas estarão aqui, não a vida."

Amós Oz, in O mesmo mar

terça-feira, 14 de abril de 2009



Alguns homens são reconhecidos pela bondade, outros pelo talento, outros pelo gênio. Mas alguns são dotados de algo tão elevado e tão espetacularmente raro ao gênero comum, que como se ungidos por um bálsamo de bondade, talento e genialidade fazem qualquer outro se sentir especial pela simples semelhança humana. Este foi o caso de Georg Friedrich Händel (1685-1759), cujo aniversário de 250 anos de sua morte se relembra hoje.

WBL
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