sexta-feira, 28 de março de 2008

TEATRO


Mrs. Sunflower – (inquisidora) E o senhor, Mr. Windflow, quando deixará de ser sozinho e formará uma família?
Mr. Windflow – (quase tímido) Ora, Mrs. Sunflower, vivo acompanhado de tantas idéias que não me sobra muito tempo para especular sobre a solidão, se é que ela existe, o que não acredito muito. Ser só é algo impossível para os que estão ocupados com tantos livros... Quanto a mim, apenas busco organizar o meu espírito, e posso lhe garantir que isso dá trabalho. Tento compreender parte das angústias humanas, como essa, que a senhora revela ao se preocupar comigo...
Mr. Overwall – (quase com espanto) Mas o senhor pretende mesmo permanecer solteiro o resto da vida? Não sente falta de dividir a vida com uma mulher e filhos?
Mr. Windflow – (rindo levemente) Eis a melhor resposta para essa questão e para a minha humilde decisão, Mr. Overwall. Sua pergunta responde tudo. A vida já é demasiadamente fragmentada pelas reflexões existenciais e pela luta da sobrevivência. Não nos sobra muito tempo para respostas sobre a nossa condição. É preciso que alguém se submeta a essa experiência para poder contar, de onde estou, o que é observar tantas famílias felizes em nossa sociedade. O que posso lhes dizer, meus amigos, é que a cada dia me sinto mais certo de minha condição, e nada me proporciona maior prazer do que vê-los tão bem e talvez por isso preocupados com a minha povoadíssima solidão...

quinta-feira, 27 de março de 2008

LIVROS DE HISTÓRIAS


Mr. Bit - A história é escrita pelos vencedores, eis a verdade!
Mr. Bite - Pode ser. Mas depois de ouvir duas testemunhas oculares de um acidente de carro, você passa a questionar qualquer história.

domingo, 23 de março de 2008

PEDRA FILOSOFAL 2



As pessoas casam-se por falta de juízo, separam-se por falta de paciência e casam-se novamente por falta de memória.

terça-feira, 18 de março de 2008

PEDRA FILOSOFAL 1


"Casar pela segunda vez é o triunfo da esperança sobre a experiência."

Samuel Johnson (1708-1784) - crítico e poeta

TEATRO


Mrs. Cagelover – Que lindos pássaros, Mr. Hunter! Gostaria de saber como mantém tantos bichinhos coloridos para alegrar suas manhãs!
Mr. Hunter – Meus pássaros são a minha mais valiosa coleção, Mrs. Cagelover! Quanto mais os tenho, mais os quero!
Mrs. Cagelover – O que o senhor pensa, Mr. Windflow? Não é uma alegria ter tantos pássaros nos terraços de uma casa?
Mr. Windflow – Acho uma pena, madame, aprisionar a beleza que, em sua essência, deve ser livre. Ao redor de minha casa, numa rua bastante movimentada, escuto os pássaros nas árvores durante o dia inteiro. Às vezes ponho alguns grãos em meu terraço e eles me fazem visitas, retribuindo com breves melodias e retornando à natureza...
Mr. Hunter – Ora, Mr. Windflow, não seja romântico! Colecionar pássaros, e de canto tão raro, é um gosto refinado e para poucos! Eis o amor à beleza!
Mrs. Cagelover – (olhando para as gaiolas douradas) – Sim, Mr. Windflow, não seja desagradável!
Mr. Windflow – (com o riso da inteligência) Perdão, minha senhora! É que no dia em que nós, os ditos civilizados, adorarmos os nossos pássaros como os indianos adoram suas vacas, ou seja, em liberdade, desfrutaremos muito mais da beleza de suas cores e de seus cantos. Esta é a nossa limitação: uma impossibilidade de liberdade que nos torna adoradores desses cárceres dourados em que a natureza é destituída de toda dignidade e talvez cante para não morrer de tédio ou tristeza.
Mr. Hunter (com o riso da superioridade) - Ora, ora, Mr. Windflow! Os indianos são adoradores primitivos! Não nos compare a eles, por favor!
Mr. Windflow (resignado) - Estou certo, Mr. Hunter, que o respeito dos indianos por suas vacas ainda é mais verdadeiro do que nossa admiração por qualquer pássaro que, notoriamente existindo para ser livre, é aprisionado apenas para um deleite egoisticamente desumano.

segunda-feira, 17 de março de 2008


O Andarilho
Friedrich Nietzsche

Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho – embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada; talvez, além disso, como no Oriente, o deserto chegue até a porta, os animais de presa uivem ora mais longe ora mais perto, um vento mais forte se levante, ladrões lhe levem embora o que tem para sobrevivência. É então que cai para ele a noite pavorosa, como um segundo deserto sobre o deserto, e seu coração se cansa da andança. Quando surge o sol da manhã, incandescente como uma divindade da ira, ele vê nos rostos dos quais aqui moram talvez ainda mais deserto, sujeira, engano, insegurança, do que fora das portas – e o dia é quase pior que a noite. Bem pode ser que isso aconteça às vezes ao andarilho; mas então vêm, como recompensa, as deliciosas manhãs de outras regiões e dias, em que já no alvorecer da luz ele vê, na névoa da montanha, os enxames de musas passarem dançando perto de si, em que mais tarde, quando ele, tranqüilo, no equilíbrio da alma de antes do meio-dia, passeia entre árvores, lhe são atiradas de suas frondes e dos recessos da folhagem somente coisas boas e claras, os presentes de todos aqueles espíritos livres, que na montanha, floresta e solidão estão em casa e que, iguais a ele, em sua maneira ora gaiata ora meditativa, são andarilhos e filósofos.

sábado, 15 de março de 2008

FÁBULA

Pousada na janela, olhando a cobra dentro de um vidro na mesa sob a qual o caçador dormia bêbado e urinado, a coruja pensou:
- Muitas coisas podem ser preservadas em álcool. Dignidade não é uma delas.