terça-feira, 23 de junho de 2015

CLARICE
W. B. Leal

Ela disse que gosta de Clarice,
da lâmina afiada refletida em
sua escrita, em seus olhos
de fogueira - eu sabia que era isso:
era isso que agora me diziam
aqueles olhos de ágata.

Eu devia ter contado que
em minha infância no Recife
costumava passear na mesma
rua em que Clarice morara, e olhara
o chão, as portas - era perto do
colégio - enfeitiçando os muros.

Esqueci-me de contar - ela estava
do meu lado, eis a razão -
que na praça em frente à casa
de Clarice muitas vezes eu sentei
observando as janelas
que incendiavam as manhãs.

Uma noite pensei ter avistado
o sol refletido na vidraça -
seus olhos de ágata eram a luz
de maçãs na escuridão - quando,
despertando no meu sonho, ela disse:
- Esse sol era o sonho de Clarice.



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sábado, 20 de junho de 2015

BRONZE
W.B. Leal

então ela disse
eu sou a foto em preto e branco
o riso de um segredo
a forma simples - a linha rústica -
da luz que acorda a sombra
no outro lado do espelho

a foto era o perfil
de um friso em colunata
a antítese de pouco - ou rara música -
na forma grega do desenho
que uma rainha desejou
numa moeda gravada

os dois perfis
assim se coordenavam, olhavam
para a esquerda e no mistério
dos espelhos - a hora súbita -
era eu que estava sério
ante a beleza iluminada.


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sexta-feira, 19 de junho de 2015

POEMA PARA LUIZA A.
W. B. Leal

ontem fez sol, agora
chove.

desde que os dias
sabem
o seu incêndio,
é a paisagem da fogueira
a sua aparição.

o mar continua
a invenção
de um estranho
relógio,
e cada onda
cava na areia
o seu secreto nome.


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quarta-feira, 17 de junho de 2015

O ANJO
W.B. Leal
  
na branca luz
difusa
que o céu derrama
na pintura da tarde
um anjo ruivo
nasce
como ilha

a pele de lua
quando a noite cai
e a blusa da espuma
na saia longa do horizonte
modulam
cada movimento

uma asa quebrada
não é nada ante
a eternidade deste dia
pois o anjo é todo céu
o anjo é toda chuva
o anjo é toda
graça


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sábado, 6 de junho de 2015

IOGA
W.B. Leal

No parque
a moça repete
o arco da ponte
(sobre o lago)
no arco da ioga
(sobre a grama).

É um quadro
curioso
o seu esforço elástico -
exercício metafórico
contra a força do tempo.

O traço alegre
do corpo sobre o verde
parece sustentar
o peso da terra,
mas não impede 
o tempo
em sua marcha - o tempo
e sua foice -
oxímoro plástico
da lembrança e
do esquecimento.


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sexta-feira, 22 de maio de 2015

OS SINAIS
W.B. Leal

primeiro foram
as fogueiras
na linha do horizonte
hastes 
que tremiam 
como as sombras dos aquários

depois foi a palavra
e seus íntimos
mistérios
e as estrelas se apagaram
sobre o rosto do deserto

então nasceu o dia -
seu penúltimo 
desejo -
e nas costelas da areia
calou a partitura
do violino de seus passos

o pulso
do silêncio -
cada nota -
riscou com seu cristal
o estranho calendário

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A CATEDRAL
W.B. Leal

No canto do quarto,
os monstros
acordam
suas bocas de gárgula.

São pândegos
toscos:
as bocas sem
dentes
são o brilho contínuo
das úmidas gengivas.

Escuto os soluços,
os espasmos da risada  
e a ridícula
respiração.

Os silvos que
gargalham
são só suas cabeças.
Não há corpo ou
pescoço.
As bocas são a cara inteira.



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