quarta-feira, 17 de junho de 2015

O ANJO
W.B. Leal
  
na branca luz
difusa
que o céu derrama
na pintura da tarde
um anjo ruivo
nasce
como ilha

a pele de lua
quando a noite cai
e a blusa da espuma
na saia longa do horizonte
modulam
cada movimento

uma asa quebrada
não é nada ante
a eternidade deste dia
pois o anjo é todo céu
o anjo é toda chuva
o anjo é toda
graça


WBLog

sábado, 6 de junho de 2015

IOGA
W.B. Leal

No parque
a moça repete
o arco da ponte
(sobre o lago)
no arco da ioga
(sobre a grama).

É um quadro
curioso
o seu esforço elástico -
exercício metafórico
contra a força do tempo.

O traço alegre
do corpo sobre o verde
parece sustentar
o peso da terra,
mas não impede 
o tempo
em sua marcha - o tempo
e sua foice -
oxímoro plástico
da lembrança e
do esquecimento.


WBLog

sexta-feira, 22 de maio de 2015

OS SINAIS
W.B. Leal

primeiro foram
as fogueiras
na linha do horizonte
hastes 
que tremiam 
como as sombras dos aquários

depois foi a palavra
e seus íntimos
mistérios
e as estrelas se apagaram
sobre o rosto do deserto

então nasceu o dia -
seu penúltimo 
desejo -
e nas costelas da areia
calou a partitura
do violino de seus passos

o pulso
do silêncio -
cada nota -
riscou com seu cristal
o estranho calendário

WBLog


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A CATEDRAL
W.B. Leal

No canto do quarto,
os monstros
acordam
suas bocas de gárgula.

São pândegos
toscos:
as bocas sem
dentes
são o brilho contínuo
das úmidas gengivas.

Escuto os soluços,
os espasmos da risada  
e a ridícula
respiração.

Os silvos que
gargalham
são só suas cabeças.
Não há corpo ou
pescoço.
As bocas são a cara inteira.



WBLog

sexta-feira, 14 de março de 2014

I SENT ROSES
W. B. Leal

I sent roses 
through the abstract lane
of the night.
I wish the roses
would light her noon.

I sent roses
in the open messages
of what is understood,
and the roses were like
the first day
and always new.

I sent roses
for the one I keep
and guard
inside my book.


WBLog

terça-feira, 11 de março de 2014

SEGUNDO RETRATO
W.B. Leal

Aos poucos tudo
voltou a ser sua permanente
lembrança,
como se cada coisa
guardasse, na passagem
dos dias, a imanência do amor,
ou como se o amor -
em constante
emanação -
transformasse o olhar
numa máquina de decifração
do que faltasse em tudo.


WBLeal

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A LEMBRANÇA
W.B. Leal


Se penso nela como sonho ou siso, 
como riso ou estranhamento que 
ao fim do dia são a minha força e 
o meu alento, é porque são dela 
os silêncios e as sementes,
os cimos e as certezas que 
a sua lembrança deixa em mim.
Creio ser dela o relógio que tarda, 
o tempo que conta mas que também 
para, porque é por ela que a lua acende,
e é por ela que os carros correm e a 
cidade, lentamente, parece preparar 
uma festa sempre que o dia começa.
Se agora penso nela com a alegria das 
coisas novas, aquela alegria que 
um menino só sente quando sabe 
estar contente, é porque são dela o meu 
sonho e o meu poema, fervor e encantamento 
por uma mulher que é lágrima e fogueira, 
pétala e pássaro que o dia nunca esquece, 
e por isso eu penso, e canto, e confesso. 


WBLog