sexta-feira, 7 de outubro de 2011


O SATÉLITE
W.B. Leal

Para ser completo, o meu espelho
pede a tua companhia.
Para que ele exista tu precisas
ser feliz.

Quando o tempo passar
marcando o caminho com
as fogueiras de nossas memórias,
saberás que um dia

foste amada como o pássaro
que da cozinha eu escuto
e o seu canto é o aroma
que sobre a mesa floresce.

O sol agora é a notícia
que prenuncia o verão. Mas as ruas
ainda estão inundadas pelo
outono que lava sua ferrugem.

Nessa cidade que é menor
que a beleza que me ensina,
recupero os sapatos que o tempo
perdeu enquanto te procurava:

na madrugada das calçadas
vândalos riscam as paredes
e escrevem nomes e desenhos
como testamentos do nada.

Em algum outro lugar um homem quer
uma mulher enquanto sonha:
a sua rede é o sorriso de um terraço.
A vida é aquele menino que

brinca e não sabe que
como uma pipa o tempo foge
e dissolve o fio que entre os dias
costura botões.

Talvez sejamos só
essa certeza que à beira do abismo
é a rouquidão do silêncio. Mas claro como o sol
o teu nome é a música que eu escuto agora.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2011


AS LETRAS AMOROSAS
W.B. Leal


Ela diz que está feliz
e que espera.
O seu dia avança em incontrolável
medida
e num paradoxo de números
dissolve-se mais rápido que o rio de Heráclito.
De tanto desejá-la
em minha casa pararam todos os relógios.
Na tarde esmaecida do Rio de Janeiro
eu também sou a paisagem que se apaga.
Pelas ruas onde passo imagino alfabetos
espalhados nas calçadas -
cada pedra portuguesa é uma letra que está viva -
e como num milagre
sigo o desejo que sempre forma o mesmo nome.
Ela diz que está feliz
e que espera.
Eu continuo a leitura
do livro da cidade.


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terça-feira, 4 de outubro de 2011


DOIS
W.B. Leal


Penso no
tempo. Penso
na corredeira de
luzes
em que a vida e
os meteoros se gastam
enquanto riscam calendários e
desenham nomes.

Posso recriar
lugares com as
ferramentas
da invenção
ou planejá-los
nos mapas e nos números
que o outono apaga.

Mas, não.
Hoje eu planejo
uma viagem
que reconstrói as corredeiras e
projeta no espaço
a permanência que é mais
que a sua certeza:
uma cidade
será sempre o encontro
de dois desejos.


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domingo, 2 de outubro de 2011



A ESTAÇÃO AZUL
W.B. Leal

Quando for sob os nossos pés a calçada de uma outra cidade que nos fará lembrar da estação, seja a alegria que se escondia nos trilhos o amor a nos fazer companhia - a alegria do mar, sempre espuma e explosão -, e sua delicadeza que era cor em tudo.

Quando formos novamente uma cidade ou todos os desejos que criarão em nós países particulares para nossa sobrevivência - um estado diferente de ser futuro e passado, uma praia ou um cuidado -, sejam o dia e a noite nossos exemplos de luzes contra o esquecimento da vida, esta partida e este sonho, silêncio e festa.


WBLog by appointment to her love and delicacy.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

sábado, 17 de setembro de 2011


14 DE NOVEMBRO
W.B. Leal

Um dia é um
número,
um barco feito
de nomes e
lugares
imaginados como
certos - rio de
cachoeira -,
às vezes um
começo.

Um dia é seu berço no
sol da manhã,
infância
na tarde morna e
fogueira do amor
ao anoitecer (o peso
do sonho
nos acorda
quando chega
a madrugada).

Um dia é
um calendário
inteiro
em sua melhor
primavera:
um dia é uma semente,
um verão, uma
centelha,
um dia é uma
lembrança eterna.


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quinta-feira, 15 de setembro de 2011


ESTE DIA
W. B. Leal

Como se pisasse
a neve
o dia que passa
lá fora,
como se um arco
tocasse uma corda
nesse verso
que risca o papel,
componho o meu poema
com a mesma esperança
que inundava as noites
de Nuremberg,
embora as minhas distâncias
sejam menores
que as de Pachelbel.

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