sábado, 23 de julho de 2011


FÊTE
W.B. Leal

A oratória é uma chávena servida por deus e pelo demônio. Poetas reinam com colares de intestino delgado, há fama e fumo para após as refeições. O idioma da pátria é uma ilha que as asas dos gênios aniquila e a urbe está plena de salas vazias e poucos humildes à porta. Poucos mendigos versejam quixotes dourados. Senhoras comentam sobre a última peste. Doutores concordam e riem, como hienas em hino. Há portas, palácios e papéis a desempenhar. Absorvemos a cultura de um ocidente distante. Somos loucos à margem, démodèe. O status engorda, e a sociedade mantém o descanso aos domingos.

WBL, in O Aedo, 1989

quinta-feira, 21 de julho de 2011


O TAMBOR
W.B. Leal

Estranho relógio
que o peito proclama,
no corpo que cresce,
um corpo reclama.

Estranho relógio,
reverso da trama,
o tempo que conta
é o mesmo que engana.

Estranho relógio,
tambor que me chama,
no corpo que engole
recria o que ama.

in A quarta cruz, W.B. Leal

sexta-feira, 8 de julho de 2011


OS HOMENS DE PEDRA
W.B. Leal

Na rua molhada, sob a chuva que dança
tocando as janelas,
uma mulher está parada e olha o céu.
Enquanto escrevo o meu poema,
talvez ela sofra por um amor perdido,
talvez se lembre do seu luto, de sua razão, do seu abraço;
enquanto escrevo o meu poema, neste momento
em que a cidade escurece no frio da tarde,
um homem sonha uma ponte e um menino
atravessa a rua que um dia tocará aquela ponte;
outra mulher abre a porta de casa e
mais ninguém - ela pensa - navegou como ela o oceano da noite;
enquanto escrevo o meu poema, um homem talvez construa um barco,
outro homem, quem sabe, amanhã o navegue,
e ainda um outro, em algum lugar do mundo,
vê nascer uma criança que um dia cruzará o oceano;
(noutro ponto do país há um homem que nunca viu o mar
nem jamais irá tocá-lo, embora sonhe com ele);
enquanto escrevo o meu poema, um soldado
reinventa a alegria de um hino,
um exército comemora sua vitória e um homem sozinho
não desistirá da bandeira que representa uma mulher;
enquanto escrevo o meu poema, um homem cego desenha uma casa
e um homem do campo, que sequer estudou as palavras,
constrói o seu palácio com pedras e madeiras;
enquanto escrevo o meu poema,
uma mulher costura o vestido com o qual casará sua filha,
um menino chora o pai ainda sem túmulo,
e um poeta se apaixona pela primeira vez
e o seu amor será também o seu primeiro sofrimento;
enquanto escrevo o meu poema ou enquanto alguém o lê,
a vida escorre como a luz em minha janela,
a luz que chega dos homens que um dia acenderam a primeira fogueira.

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quinta-feira, 30 de junho de 2011


O DEFUNTO MUSICAL
W.B. Leal

Determinou em testamento que, para o seu velório, fossem providenciados um pequeno serviço de atendimento com manobristas, um buffet de salgados e doces feitos na hora, sucos de frutas, vinho tinto e, com ênfase contundente, que durante todo o tempo de exposição do seu corpo fossem tocados os seis Concertos de Brandemburgo, de J. S. Bach. Essa história teria dois finais. No primeiro, o número de amigos, conhecidos e curiosos seria tão grande que, devido à lotação da sala de cumprimentos e a consequente impossibilidade de acesso de todos à beira do caixão (onde o corpo se encontraria nu, entre rosas), o velório teria sido prorrogado em mais um dia, e, num terceiro, seria cobrado ingresso para tentar frear o público, pois, junto com as rosas murchas, o corpo já começava a cheirar mal. Na segunda hipótese para o fim dessa história, uma derradeira cláusula no testamento - a que pedia um número reduzidíssimo de pessoas durante as exéquias - teria sido curiosamente atendida, ainda que de forma involuntária, à risca. É que, devido à ausência de qualquer amigo ou carpideira para velar o morto, a rápida cerimônia teria sido assistida apenas pelos manobristas (todos de luvas brancas), pelos três garçons (impecavelmente vestidos de negro), e pela pequena orquestra de câmara que executaria apenas os três primeiros concertos de Bach. Isto porque o primeiro violino teria sido avisado, ao término do terceiro movimento do segundo concerto, de que o cheque deixado pelo defunto não tinha fundos.

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quinta-feira, 16 de junho de 2011


ORBE AMOROSO
W.B. Leal


Como um cão que
morde o rabo
girando enlouquecido
no sentido do relógio,
o tempo arrasta os dias em
seu lento necrológio,
e os amores
se renovam entre uivos
e rosnados.


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domingo, 12 de junho de 2011


ENCONTROS
W.B. Leal

As pessoas
nos inspiram.
As pessoas nos
respiram.
As pessoas
piram.

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quinta-feira, 9 de junho de 2011


POEMINHA À TOA
W.B. Leal

Se o poema te pede
o trabalho da existência,
a vontade se impõe
sobre a mão da experiência.
A precisão da falta -
o arrasto do ponteiro
no correr das horas - e
o olhar que vê o mundo
do teu lado de dentro,
é tudo o que precisas
para o poema que te habita.
Outro jeito de existir
é o que o poema te pede:
ouve a música que se esconde
nas palavras do teu dia,
lá está o velho barco, lá
está a poesia.

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