terça-feira, 7 de dezembro de 2010


FANTASIA
dedicato
W.B. Leal

Constroem este poema
a tua palavra e o teu silêncio.
Estes elementos te relembram
no instante em que penso.

É corpo e surpresa
a tua escultura de fogo.
Em seu estudo descobri os caminhos
por onde a estrela recria
os teus inventos de luz.

(Ave e sentido era a fantasia
que a minha alegria encontrou.)

Enfeitas as horas
como uma cidade em festa.
Em mim é o teu pouso
a explosão deste dia.



MEMÓRIA
W.B. Leal

De cor,
só sei o teu nome.
Esqueço a cidade, as horas,
os compromissos da tarde,
para lembrar o teu nome
como a história de uma alegria.

De cor, só sei este nome.
Assim recupero a bandeira
que reclama a tua falta,
e remonto o cordão
que faz brilhar cada conta.

Em mim,
só guardo o teu nome.
Outras letras aprenderei
na infância desta palavra.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


O ELO IMPOSSÍVEL
W.B. Leal

Como se fora ausente, e dura, e muda,
como se fora a asa que rompida apaga
a altura do sonho no desejo do voo,
como se fora pedra e peso, ou funda
meditação que ausenta de tudo o corpo
sendo só ausência sua consciência pura,
assim o silêncio inundado de portas e
distâncias nos anula, sem luz, sem nome, sem nada.
A sala preenchida por vultos e vozes
como longas partituras em branco
onde se avistam danças e desenhos
que são outra maneira de lembrar.
Ali, no papel reluzente como a janela
da lua sobre a água, resistem gestos,
olhares, feitos e sentenças livrando da vida
a lembrança encarcerada, o elo impossível
com o que é só ausência e nada pode contar
de um tempo já sem nomes nem calendários.
Como se fora ausente, essa coisa grita, e bate,
e fere, e agora a sua existência sentida
são os vidros da lua perdidos no mar.

sábado, 4 de dezembro de 2010


SEMPRE,
W.B. Leal

Já não importam os anos
ante tudo o que resiste
neste hoje que é meu sempre:
uma letra se descobre
a revelar um mesmo nome -
resiste o quando, insiste o onde,
iluminando nesse espelho
a eterna fome.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


E SEMPRE
W.B. Leal

O poema deste dia
é a música que guardo
entre a chuva e a madrugada.
Na noite aberta, um madrigal de Monteverdi
recria um calendário antigo.
O tempo é esta chuva que revive.
Sua música - dizem - não existe mais,
mas enquanto a chuva cai
um nome é repetido em cada nota.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


POEMA
W.B. Leal


Talvez não haja o instante exato, a palavra que diante do instante seja mais que o seu antigo significado, a coisa mesma, o sentido que de tão simples renove apenas a sua existência, e o relógio siga a sua contagem de dúvidas e confirmações no instante que pulsa, e esquece, e passa, e é.
Talvez essa repetição de uma coisa antiga que já tenha falhado, que tenha fixado na lembrança a possibilidade de uma outra existência, seja só esse pressentimento, e tudo seja uma sensação, uma asa de luz sobre a onda do escuro, e todas as ciências sejam elas, sim, as únicas possibilidades do sim e do não.
No quarto a música inventa uma etérea cidade. O silêncio protege o que ficou nos armários. Os velhos amores resistem, os novos se evolam, e a lembrança é um cálice sem par na prateleira. É o sono se aproximando do dia. O sono das horas. A noite dos desesperados.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010


O TEMPO, SENHORA
W.B. Leal


O tempo, senhora, é este papel.
Para os que souberam, como nós, sonhar a sua história,
nascerá sobre o branco o desenho de uma estrada:
o seu destino é um rio, ou um mar, ou um recomeço.
Na margem deste mapa dorme a praia
que guarda cada passo do que fomos ou vivemos.
Ali revejo o barco que percorre o meu papel,
e de papel é feito, como as nuvens e os pássaros
que escrevem o silêncio.
O tempo, agora, é este barco.
Os pássaros parecem pousados.
Por um instante se iluminam.
É outro dia.