sexta-feira, 4 de setembro de 2009


Mesmo que o mundo silencie o motor de todas as certezas,
tu estarás em mim.
Não importa a ausência do corpo,
a mudez dos telefones ou as janelas fechadas,
pois tu estás em tudo o que há de belo e puro.

Nas noites de minhas lembranças
és uma casa iluminada.
Se nela deposito o teu nome,
as coisas se acendem, e por isso
já tudo é como o céu das noites limpas de verão.

wbl

quinta-feira, 3 de setembro de 2009


VOO NOTURNO

No pedaço de lua
que a tua pele ilumina,
é seda e perfume o teu relevo de estrelas.
Em tua geografia todos os pássaros se vestiram de branco
para que em tuas dunas eu erguesse a minha bandeira.

São milhares de luas as curvas que te recriam,
e apenas a tua lembrança
já acende a minha alegria.
(A minha fome velava
enquanto tu dormias,
pois no descanso da festa
o teu silêncio também era poesia.)

No pedaço de lua
que a tua pele acende como uma asa de fogo,
eu guardo a volta e o desejo do meu pouso.

wbl

O VALE

o passado é uma cidade
que não cansa de existir.
é a luz que se equilibra
sobre o tempo do horizonte
que persiste em perseguir.

no presente, o dia, a hora,
é a morte a repetir:
este dia é o mesmo dia
em que em dia de outro ano
haveremos de partir.

nesta lida, o que choramos
é o pão a repartir.
se sonhamos ser felizes
acordados neste sonho
só sonhamos existir.

wbl in Os Círculos Imprecisos

O que nos vem
e o que deixamos.
O que nunca encontra.
O que eternamente
é par.
O lar,
a comunhão...
O que nos é pedido
e o que nos leva.
O que damos, o que
precisamos.
O que é busca, o que somente
nos procura,
o que ninguém concede.
O caminho, o laço, a cama,
o que lutamos pelas mãos,
o que desperdiçamos.
O que nos é dado escrever:
o sonho e o acontecimento.
O homem que ama.
Os danos e o benfazejo.
O lucro, a perda, a falta, o jogo, o amor.
A flecha e o conto.
A ficção, os pés, (a solidão).
O relógio,
a morte.
A música e a vela.
O ventre, o vão, a paixão.
O que queremos.
O que quer.
O que vivemos.
O que vive.
O orgasmo. A espera. A água. A esperança.

wbl in Os Ritmos do Fogo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Deixaste teu brinco
no meu pensamento,
um elo de prata
no espaço e no tempo,

um arco que marca
as voltas do vento,
ou concha que ouve
meu fino lamento.

Deixaste teu brinco
no meu pensamento,
na fome do corpo
da orelha que invento.

wbl, in A Música da Luz

Dentro da noite,
como esta mão
dentro de outra mão,
o tempo canta o seu silêncio.
Não o silêncio da palavra, de garbo
e definição, mas um canto sobre o que, na distância,
se alimenta ao vencê-la,
estro e ruptura de uma multiplicação infinita,
sombra que sustenta o peso da luz.

Nesta mão de abstrato instrumento,
de ritmo claro como o pulso do céu,
ouço o equilíbrio que sobre a vida
constrói o seu impulso - peso e leveza
de todo princípio - barco que conduz
a algum centro
o sentido de tudo.

wbl in Os Ritmos do Fogo

segunda-feira, 31 de agosto de 2009