sexta-feira, 3 de abril de 2009


RELÓGIO DE PONTO
Alberto da Cunha Melo

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas, com o verniz das estrelas.

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AUSÊNCIA
wbl

Do que os poemas de amor
que não escrevi,
o teu silêncio foi maior.

Do que as cartas de amor
que não entreguei,
a tua distância foi maior.

Quantas palavras habitaram este silêncio
quando eras só uma hipótese,
quando a distância que te sabia real
foi maior do que todas as cidades?

Outros, melhores do que eu,
terão a sorte de dizer-te o que não pude.

Espero que saibas, no entanto,
que de todas as palavras e todas as distâncias
a tua ausência foi maior.

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quinta-feira, 2 de abril de 2009


GEOGRAFIA DA MEMÓRIA
wbl


Amo o teu cheiro, o teu jeito,
o beijo do oceano
que derramas em mim.
Amo a palavra
distribuída nas sílabas de tua coluna,
e amo a frase inteira
que o meridiano dos teus quadris circunda.
Amo a ciência dos teus joelhos
e o ângulo agudo dos teus cotovelos;
amo a atmosfera do teu pêlo, a lua
no cabelo e a claridade do espelho
em cada uma de tuas unhas.
Amo a estreita circunferência
que a tua cintura enriquece,
e em tuas pernas os caminhos
por onde o teu banho desce.
Amo os teus olhos,
que os meus olhos nunca esquecem,
e os incêndios que a tua língua
ateia em minha pele, despertando cada poro
que se acorda dormente, mas que sente, e sente, e sente...
Amo os teus braços de dulcíssima firmeza
quando os meus braços os cingem,
e eles fingem ser asas
para que me carregues até a mais alta
das encostas, onde outra vez
eu te amo, amando tudo em ti,
o teu gemido,
o teu silêncio,
a tua resposta.

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quarta-feira, 1 de abril de 2009


O QUE TE PRENDE A MIM
wbl

O que te prende a mim
não é o desejo do meu corpo que como um éter
adormece em tua pele.
O que te prende a mim
é a fogueira do primeiro incêndio,
que hoje, no vazio, arde em tua lembrança.

O que te prende a mim
não são os teus prazeres anelados em meus dedos
sob as luzes dos cinemas.
O que te prende a mim
é só a tua fome que tentas esquecer como uma ilha –
corpo que se desprende no gozo que arrepia.

O que te prende a mim
não é a minha poesia estendida aos teus pés
como um tapete de versos.
O que te prende a mim
é o que também ficou comigo e morre um pouco a cada dia,
como o canto das sombras na ilha do sol.

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INFORMAÇÃO PARA TURISTA
Jaci Bezerra

Uma acácia, nos compêndios da poesia,
não será nunca árvore, mas invento:

a invenção de Deus no oitavo dia,
utilizando pássaros, nuvens, ventos.

Milagre que se abre e é concebível
navegando no silêncio das esquinas

ou das praças, e que quanto mais visível
menos aquele que a vê a imagina.

A acácia é leve e ave, sobretudo
à época do verão, quando se inflama

e úmida de luz e sol, aninha tudo,
inclusive o Recife, em suas chamas.

Toda acácia florindo tem o dom
de voar no espaço onde se planta,

e ao florescer, aberta em luz e som,
uma acácia tanto voa como canta.

Qualquer acácia é um excesso de beleza
desconcertando o lógico e o comprovável:

por isso mesmo ao flutuar, acesa,
quem a vê tem vontade de ser árvore.

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TAPEÇARIA
David Mourão-Ferreira

O que em ti há de eterno? O que em ti há de efêmero,
de lira de Camões, de leituras da Elle,
de tão moderno como a própria Nefertite,
de tão antigo como um manequim recente?
O que em ti me recorda um jardim de Munique,
um dia de Setembro, uma praia de sempre?
O que em ti me exaspera? O que em ti me prendeu?
Tudo está afinal na ausência de rima
entre as ancas e o seio, e contudo na linha
em que tudo se une, em que tudo se urdiu.

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PRESÍDIO
David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tato sempre pouco?

E o ventre, inconsistente como o lodo?
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

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